Chegou a hora. Entrei na parte 4 do meu livro. É agora que a história começa a mostrar qual será a grande luta do protagonista. E é agora que eu preciso ficar muito fria. Qualquer azinho fora da vírgula pode deixar tudo muito exagerado e aborrecido. Mais ou menos como comentei aqui, quando falei das minhas decisões sobre a personalidade do vilão. É como pisar em ovos explosivos.
Aí que quase travei no primeiro diálogo desse delicado trecho. Eu tinha na cabeça o tipo de querela que queria que acontecesse pra situar o leitor nas profundezas dessa parte da história, mas achei que não seria capaz de transportar a SENSAÇÃO do que eu pensava para um diálogo. Um diálogo que tinha que ser ao mesmo tempo profundo, ao mesmo tempo engraçado e ao mesmo tempo aflitivo (escrever diálogo é tão difícil, demorei pra pegar o jeito).
A boa notícia é que ontem à noite concluí esse trecho, estou engraçadoprofundoaflitivamente orgulhosa e não paro de relê-lo. Pena que não posso colocar aqui, por motivos de nem morta.
Agora, profundo, engraçado e aflitivo mesmo é escrever. Meu Word diz que estou na página 113, minha cabeça diz que estou só no começo e minha ansiedade nem consegue dizer nada porque não para de gritar palavras sem sentido.
No meu livro existe uma biblioteca chamada Biblioteca Proibida. A entrada é franca (muito franca) e alguns personagens, uns coitados que leem com a cabeça, acreditam realmente que aquela biblioteca é proibida pelas autoridades do local. Eles leem escondidos em suas mesas, sem nem notar que milhares de pessoas em volta estão lendo, desproibidamente, de maneiras muito mais completas. Transcrevo um trechinho aqui:
Na verdade, a um segundo olhar mais minucioso, era possível perceber que aqueles sujeitos não estavam realmente lendo – ou não o faziam da forma tradicional, pelo menos. Uns lambiam as páginas, outros assopravam, outros batiam com os dedos nas folhas sem dó nem piedade, outros, ainda, conversavam com as páginas, animadamente. A leitora mais assídua ali no canto mergulhava de maiô e tudo dentro de um livro (e letras espirravam por todos os lados, uma bagunça). Era possível contar nos dedos quem lia olhando para as páginas, paradinho, paradinho.
É que lembrei disso ao assistir a um dos curtas de animação que está indicado ao oscar, The Fantastic Flying Books of Mr. Morris Lessmore. Pode até ser que a ideia não seja a mesma, mas senti uma certa sintonia com minha cabeça e estou encantada com essa animação. Olha só:
Estou ansiosa pra assistir no iPad!
*dedico esse post ao querido tio Sandro, que faz aniversário hoje e sempre foi minha inspiração, desde cedo.
Acredito em tudo, e por isso mesmo não acredito em coincidências. Por um conluio de situações, acaba de me bater uma visão importantíssima sobre meu livro. : )
É que cheguei num capítulo bastante delicado: é hora de apresentar o vilão da história. Sim, porque minha história tem um vilão. O processo de criação dele nasceu meio sem sal, mas cresceu: primeiro, eu sabia que tinha que haver um ser meio mau ali dentro, mas não conseguia desenhar a motivação do rapaz. E também queria fugir do comum, puro e simples “quero ser do mal e conquistar o mundo”. Aí, com o tempo, principalmente agora que a razão de ser do meu livro está clara, fui conseguindo desenhar bem, na minha mente, qual é o problema do moço. Consegui enxergar traços dele me incomodando em pessoas reais e, de repente, a motivação dele apareceu muito clara pra mim. De um jeito que agora, consigo ver o vilão do meu livro escondido no dia a dia. E isso é bacana, porque, na hora de escrever, vai me dar vontade genuína de fazer esse personagem perder no fim da história. Destruir os planos dele vai ser uma maneira de representar a minha luta pessoal contra o que eu acredito ser mal sem bater em ninguém na vida real. Útil, né? : )
Chegar aí foi fácil.
Só que, do jeito que andava, transformar minha história em um panfleto chato das minhas ideias também ia ficar fácil demais.
Até 10 minutos atrás, sempre que eu pensava no meu vilão, vinha aquela coisa pesada, bem construída psicologicamente, dramática, até. Aí, hoje é feriado, blábláblá, resolvi almoçar com a TV (morar sozinha tem suas xaropadas), e vi um trecho do coelhinho vilão do Deu a Louca na Chapeuzinho. Nem é um grande personagem, sei. Mas, de repente, TCHOF. Ele me fez sacar uma coisa importante: vilões podem ter construtos psicológicos muito profundos, mas não precisam ser pesados e densos de maneira a virar um buraco negro na história. Meu livro gosta de ser leve, é até bem engraçado, e o meu vilão, do jeito que eu andava imaginando, corria o risco de por tudo a perder.
(olha que metalinguagem!)
Aí decidi: as motivações são as mesmas, mas ele vai ser ENGRAÇADO. Vai passar a minha ideia sem parecer que está dando lição de moral (vou ser muito mais beakman que professor chattoff). Vai ser caricato sem ser maniqueísta. E você vai entender ele e você vai rir dele e você vai odiar ele.
Vai ser um baita exercício! Que vai fazer bem pra saúde dos meus leitores. : )
A foto lá em cima não é à toa. Judge Doom é um vilão que tem as características que falei, e vai ser exemplo pro meu (afinal, pra quem não sabe, o clima do meu livro é bastante Uma Cilada para Roger Rabbit):
Não sabia que era assim, no entanto é óbvio que é assim!
Chegando quase na página 100 do meu livro, decidi parar e reler a história desde o início, já corrigindo errinhos, exageros ou desexageros. E vi o quanto isso é fundamental pro meu processo de criação. Primeiro, porque hoje tenho uma visão muito mais madura sobre a história e o que pretendo com ela, e aparar as arestas agora e redescobrir alguns trechos tem sido fantástico pra entender minha própria vida (sim, de verdade). Segundo, porque é importantíssimo não perder o fio da meada. Ora, a primeira página, nesse modelo, nasceu em 2007. São 4 anos de sentar pra escrever e começar do ponto em que parei sem lembrar se tinha parado a história de dia ou de noite, se chovia ou fazia sol, o que gera uns erros muito engraçados.
Percebi, por exemplo, que cheguei a descrever o mesmo cenário ou personagem mais de uma vez, e de formas diferentes e contraditórias. Tipo o prédio que em um capítulo parece o coliseu, e no seguinte vira um castelo de tijolinhos à vista. E é o prédio mais importante da história.
Fica a dica, se isso funcionar pro seu processo de escrita: de 100 em 100 páginas, pare tudo e releia a história, com um olhar de leitor e continuísta de si mesmo. Além de ser fundamental, é muito bom como controle de qualidade: se você continua gostando do que escreveu há 4 anos, provavelmente é porque o material é bom. : )
Acabei de voltar de lá. Que cidadezinha charmosa. Nunca fui em uma FLIP (falta de planejamento, não de vontade), mas deu pra entender porque uma Feira de Livros poderia acontecer lá. É tudo literário demais. E ando afastada dos blogs (de todos), sei, sei disso.
Já disse que a ideia nunca foi ser lida, né? Que meus blogs são mais pra botar de dentro pra fora com ordem e método. Mas, caso alguém ainda passe por aqui, fica a desculpa. Sei que estou em dívida. Então passo as boas novas: os escritos vão indo. Comprei um notebook e tenho esperança de que isso me motive ainda mais a escrever (livro em mãos sem precisar de pendrive ou de lembrar onde foi que parei, pra escrever a mão), e minha mais recente medida pra me inspirar é ler livros meio diário de escritores.
Comprei um desses do Graciliano Ramos, sem querer. O sujeito é chato, mas a experiência é boa. Acabei de ler hoje. Mas o melhor desses é o Dicas úteis para uma vida fútil, do Mark Twain. É praticamente um blog desse autor norteamericano mal-bem-humorado. Fica a dica.
Ótimo porque além de dar várias dicas para escritores incompetentes como eu (era até pouco tempo), ele me abriu os olhos para o seguinte: em todas as páginas do livro, está implícito que pra você ser um escritor, tem que escrever todos os dias, como uma rotina.
Ou seja, dentre as 786 dicas do livro, não existe a dica: Tente escrever todos os dias. Não. Pro autor, é óbvio que você escreve todos os dias, e se não escreve é porque teve um bloqueio. E precisa se livrar disso.
Deste livro em diante, estou indo dormir mais tarde, mas com a sensação de dever cumprido. Não fico mais 4 meses sem tocar no meu livro lamentando minha falta de tempocriatividadepaciênciaorganização.
Agora escrevo todo santo dia meia página do meu livro (ou melhor, dos 3 que estou escrevendo). Às vezes me irrita porque parece que estou escrevendo forçada e que a qualidade do texto cai um pouco, mas só a sensação dos livros estarem vivos e crescendo, e a sensação real de que eles vão ter um fim afinal, me deixam feliz.
mas tive uma iluminaçãozinha (e deus abençoe os palitos que funcionam). Não é mais do mesmo. É uma homenagem a todos os livros de fantasia que li desde miúda.
claro que não esqueci do meu livro. ele não me deixa esquecer, sempre fica martelando na cabeça “até você ter um filho ou uma idéia melhor que eu, eu sou o projeto da sua vida, sua imbecil”.
aí eu descobri alguns blogs de outras pessoas que contam seus processos criativos. e eles me inspiram e também não me deixam esquecer do meu livro. Tem um deles que é de um cara publicitário que conta sua saga em busca de uma editora para publicar sua obra. dia desses deixei um comentário por lá pedindo ajuda, e ele fez um post pra isso. Gostei bastante.
Yesterday, Franfran commented on this blog: I have an elementary problem: I can’t write my first book. I’m working on it for 7 years (SEVEN YEARS), and it’s just the beginning. Any tips for me in my despair?
Far be it from me to suggest I’m able to offer ‘tips’ to any aspiring writers (my lack of success kind of precludes me from doing that with any authority) but I thought it was an interesting dilemma.
How long does a book take? How long should it take? Are we saying from very first idea to final draft, or from first word on the page to last?
I went into the process of my own book in an earlier post, but from the initial idea to this point has been a minimum of four years. I can’t remember exactly when the very first thought came into my mind, but there was a lot of gestation and crappy writing before I actually got anywhere, and it wasn’t until last year that I really took it by the scruff of the neck. I don’t know for sure, but for a first-time author that feels about average. I didn’t know what I was doing; I didn’t know how bad it was; I hadn’t developed any ways of working through problems; I was finding my feet.
For proper authors I’ll bet the time it takes to create a book varies enormously. Barbara Cartland: five minutes. JD Salinger: we’re still waiting. They might have ten plots knocking around their heads simultaneously or carefully nurture a single story for decades. This would appear to be another one of those fascinating grey areas that makes writing both maddening and satisfying.
From my point of view, the only ‘advice’ I could possibly give Franfran is that seven years is nothing if the book turns out right. If someone could guarantee me that I’d have a really good book written in ten years’ time but nothing until then, I’d be delighted. I’d also say the same thing I’ve said to several people who tell me they’ve got a great story that they haven’t written: the only person who can do this is you. Once you accept that, it frees you from the yoke of the myriad excuses that are so easy to find. If you want to write a book there can be no excuses. You either write it or you don’t. It’s as simple as that.
That’s the fun bit of today’s post. The dull bit is two more rejections (they’re reading/rejecting faster than they said they would): Darley Anderson and Coombs Moylett. I might start sending a few more letters out.
então é isso mesmo. the only person who can do this is you.