Só quem já passou por isso sabe o que é estar na TPM e o diretor de criação reprovar sua ideia às 19h.

Só quem já passou por isso sabe o que é estar na TPM e o diretor de criação reprovar sua ideia às 19h.

Quer escrever algo novo? Pare de destrinchar os grandes mestres. Vai ler rótulo de shampoo, de groselha, sei lá. Mas vai lá. Quer novas respostas? Então pare de perguntar as mesmas mofadas perguntas de sempre. E saia do paradoxo do inovador de mentirinha.
É um paralelo que fiz da vida-em-geral com essa apresentação, que fala de um problema enfrentado por quem trabalha com publicidade/design/inovação/e mais outras coisinhas: a dificuldade de fazer uma coisa realmente nova, por causa do medo do cliente/da mulher do cliente/da sociedade/do escuro.
É um slideshare de 2009 que continua atual, feito pelo querido Sollero, meu ex-chefe, de uma equipe da qual sinto muitas saudades. (:
Sei disso porque já passei por essa fase, e bem cedo, na época em que levar um livro da Agatha Christie pra ler na hora do recreio era símbolo máximo de literatura: é que todo leitor que se considera “iluminado” passa por uma fase em que ele descobre o que é que o difere do “leitor comum”. É quando ele começa a olhar com cara feia as listas de best-sellers e dá uma risadinha disfarçada ao ver aquela senhorinha de crocs e coques lendo aquele livro que está na moda. É quando ele passa de nariz empinado pela seção de autoajuda, alimentando o senso comum de que livros de autoajuda são coisa de gente burra.
Resolvi fazer esse post depois de perceber muita gente confessando pra mim, meio sem graça, olhando pros lados, que estava lendo determinado livro de autoajuda. Gente bacana que fala isso quase que pedindo desculpas, como se essa declaração fosse um ingresso pra que eu fizesse um Bücherverbrennung com eles em plena praça da Sé, jogando na fogueira livros, pessoas, Paulos e Coelhos.
E espera aí, que não é por aí. Claro, existe muito livro de autoajuda safado por aí, de gente que inventa regra pra tudo e escreve meia dúzia de afirmações óbvias, pensando na grana – e isso já subverte o papel final do livro.
Mas a autoajuda em sua essência não precisa ser isso. Esse gênero pode ser bem escrito, deve trazer alguma coisa bacana, alguma coisa que te faça sentir bem porque primeiro te fez sentir alguma coisa, porque te conta coisas novas, coisas inteligentes, porque te mostra um novo viés para viver (e o legal é que, sob essa ótica, qualquer livro de literatura pode ser uma autoajuda disfarçada).
O problema não é a autoajuda. É a autoajuda que não te acrescenta nada, que faz você ler e achar bacana, copiar uns textos na sua timeline do Facebook e continuar lá, todo bacana. Isso se aplica a todas as autoajudas dessa vida. Terapia bem feita é autoajuda, crença sincera é autoajuda, exercícios físicos regulares são autoajuda. E se você está saindo do consultório, da igreja ou da academia super de bem com você mesmo todos os dias, sem uma dorzinha lá ou acolá, lamento informar: ela não está te ajudando em nada.
Por isso, da próxima vez que você for me contar que está lendo um livro autoajuda, não precisa se esconder. Você está lendo ele do jeito certo? Você já está colocando em prática na sua vida? Você tem vontade de ir a fundo e entender as bases do que você está lendo?
E principalmente: ele te ajudou?
Então não me interessa se é cafona ou não.
Com o tempo você pode até ir migrando de estante e descobrindo novas formas de se fazer autoajuda, uma que não envolva, necessariamente, fórmulas prontas para o sucesso ou fotos dos próprios autores com seus dentões brancos em exposição.
Isso é autoajuda:
Isso é autoajuda:
Isso é autoajuda:
Isso é autoajuda:
Isso é autoatrapalhação:
Isso é automóvel:
Tudo o que eu faço ou tento fazer direito na vida é minha técnica pra não levar uma vida sem graça. Não me conformo em ter os mesmos assuntos todo dia, em me gabar das mesmas conquistas vazias da noite anterior, dos 14 aos 50 anos.
Cansei de ver gente lutando desesperado pra não ter “uma vida sem graça” e fugindo da vida real – e tudo o que ganhou em troca até hoje foi uma seqüência de domingos vazios de ressaca na frente da tv ou do YouTube.
Lutar contra isso é uma das minhas unfightable fights.
É isso: não gostou, não pega eu.
Tô aqui escrevendo no intervalo do espetáculo do cirque du soleil (tenho 25 minutos pela frente e ninguém com quem comentar). Tava em casa sem fazer nada e meu amigo manda um “tenho um ingresso de 400 reais pro varekai pra HOJE e não posso ir. Quer?”. Não acreditando que era possível fui lá e fiz. Era um dos meus sonhos, e como costuma acontecer pra mim, aqui estou realizando ele, de repente e de graça.
E estou no auge da inspiração (o cenário lembra muito meu livro), querendo dizer umas coisas pra (sobre) a gente.
1.
Do protagonista ao iluminador: tudo tem um esmero lindo. São pessoas que estão no topo da cadeia alimentar onde trabalham. É o que me lembra a Disney. É o que me lembra de revisar meus trabalhos 48 vezes antes de entregar e o que me deixa triste quando vou dormir depois de um dia que eu poderia ter deixado muito melhor (sempre). Um selo de qualidade além da própria expectativa, é disso que tô falando.
2.
Quando você está numa atmosfera impecável assim o público fica mais exigente. Na primeira acrobacia sensacional todo mundo aplaude. Mas as coisas vão ficando tão melhores com o passar do tempo, que vamos nos acostumando – e quando chega o final do show, aquela primeira acrobacia não vale mais nada. Que medo. Em relação à artetrabalhovida, espero não ter entregado minha melhor acrobacia ainda. Por favor, sejam exigentes.
3.
Mas acho que o mais mais mais incrível das cenas do cirque é que elas são feitas por gente que nasceu no pé de igualdade com a gente. Como eu e (espero) você, também vieram com duas pernas, dois braços e uma cabeça. Ou seja, pouca coisa impedia a gente de fazer com essas pernas e braços o que eles fazem – exceto, talvez, a cabeça.
É por isso que sempre valorizei esporte, alongamento e, agora mais que nunca, dança. Acho triste a gente limitar um instrumento tão legal a andar, sentar e deitar.
O que me separa dessa pessoa absurda aqui no palco é, basicamente, anos de treino e algumas escolhas.
E muita disciplina.
O que me lembra outra coisa: o se esforçar pra fazer o melhor do melhor. Ninguém nasce bom, e todo mundo nasce especial. Se você não quer ser ninguém nem todo mundo, tem que sair daqui da plateia, onde você só tem chance de aplaudir, admirar ou reclamar, e ir lá ralar nos bastidores. E fazer mais, e deixar de fazer muita coisa.
Já vi gente demais dizer que não consegue fazer (insira algo realmente sensacional aqui) porque não tem grana, ou estudou em colégio público ou não tem tempo. Conversa.
Um dia posso perder tudo, inclusive minha memória junto com tudo o que já aprendi, e virar a mendiga amnésica mais ocupada do mundo. Mas Deus me ajude que eu ao menos tente ser a melhor mendiga amnésica sem tempo do mundo.
Pra ornar:
Tem uma coisa muito doida acontecendo e não sei se devo investigar a sério com minha psicóloga. Já é a terceira vez que mudo a senha desse blog porque meu cérebro APAGA completamente ela da minha memória.
De verdade que acho que é uma espécie de autoflagelo subconsciente por eu não postar aqui com tanta frequência quanto eu queria.
Da última vez, o branco virou quase um A Origem das senhas. Tinha esquecido a senha do blog, tinha esquecido a senha do e-mail do Yahoo! onde esse blog estava cadastrado, não lembrava a senha do BOL onde o e-mail do Yahoo! estava cadastrado, e antes que eu tivesse que receber minha senha por correio (meu e-mail pré-bol era A Tribuna, e a senha devia ser algo como “Nick Carter lindo” – eu não ia lembrar), consegui solucionar o funil e resgatar o controle dos meus palitos.
Aí me bateu uma inspiração daquelas. Daquelas que vêm de dentro, fazendo doer o estômago. já teve? E vim o caminho todo pensando num post incrível. Serião, ia ser um texto daqueles de abalar as bases da sociedade. Ele ia abrir a cabeça de muita gente e de quebra ia me deixar aliviadíssima. As analogias eram muito boas (e engraçadas!). Ele fazia todo o sentido.
Pra mim.
Conforme fui continuando o caminho, percebi que estava precisando fazer muitos ajustes mentais no texto pra ele não chatear um, irritar outro, confundir uns 50. Parei tudo. Deixei anotadas as analogias e 3 ideias centrais, mas não ouso mexer nele enquanto ele for um grito.
Não, não. Quero fazer pensar, não machucar. Escrever de estômago dolorido não é saudável. Prefiro ideias bem digeridas. Elas podem não vir cheias da paixão do impulso. Mas vêm muito mais espontâneas, leves. Um sussurro. E não vão deixar de levar a mensagem que eu quero.
Acho que é por isso que tirinhas são uma de minhas formas favoritas de protesto. Da raiva inicial até o trabalho final, existe um processo muito mais sábio, da elaboração da história, do desenho, da coloração. E a gente só clica no Publicar depois de contar até 1 milhão. : )

O que me faz pensar. Quando vou parar de me apresentar como Francine publicitária e me apresentar como Francine escritora?
Uma questão de mudança de substantivos (ou de adjetivos, se eu for boa ou ruim o suficiente)? Uma questão de mudança (ou melhoria) de espírito?*
Vamos comemorar a data escrevendo nossos livros?
(ou tem coisa melhor pra fazer?)
*
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Tema: Esquire por Matthew Buchanan.