Palitos de Fósforo


Ode à idéia natimorta

Então você é criativo, não é? Quando você era criança, sua mãe era daquelas que te dava Leite Ninho numa mão, um livro na outra, e programas da Cultura como trilha sonora. Na escola, se você não era dos quietinhos cdfs, era dos incompreendidos à la Calvin, que iam pra diretoria semanalmente, mas cujas notas superaam a dos quietinhos. Incompreendido. Não, não. Criativo. E você carrega esse fardo, meio orgulhoso, meio irritado com seus tios te olhando com aqueles olhinhos brilhantes, esperando seu próximo ato criativo, ou com seu pai, esperando você trocar de roupa antes de sair de casa, porque pra ele aqueles sapatos não traduzem uma combinação criativa.

Então você me entende. Então provavelmente você entende o conceito de idéia natimorta. Então você pode declamar comigo a ode à idéia natimorta.

São 24 horas no dia. Se sua cabeça não pára, deve ter fertilidade suficiente pra conceber umas 24 idéias por dia. 25 num dia ruim, uma em um bom dia. 23 delas não prestam, e você as joga no lixo hospitalar das idéias (não sem antes colocá-las num recipiente adequado à prova de plágio). E a outra uma é aquelas. Seu inconsciente [aquele velho senhor muito do inconveniente que trabalha escondido noite e dia, e só surge nos momentos inapropriados, com sonhos estranhos que resolvem te mostrar seus sentimentos inapropriados por pessoas inapropriadas] moldou a pequena, acertou os detalhes e a jogou em algum setor do seu cérebro, aquele que você gosta de chamar de zona da inspiração. [e zona é um ótimo nome, já que a inspiração nem sempre é uma moça de família, e tô pra ver alguém que curta mais do que ela esse negócio de só resolver funcionar em troca de dinheiro ou de um ou dois copinhos.] Uma vez tendo a idéia lá no lugar certo, chega a sua vez, já que esse processo, como quase tudo na vida, nada mais é do que um trabalho em série, cuja parte pior é de sua responsabilidade.

E aí o que você tem que fazer é fazer. Mas fazer nem sempre é a coisa mais fácil a se fazer. Porque assim que a idéia cai no seu cérebro, você certamente está lá, mais ocupado, assistindo Gilmore Girls e tomando café (porque Gilmore Girls dá uma vontade louca de tomar café, é fato) e vai adiar o momento da idéia por mais um tempo. Mas ela não é tão insistente a ponto de ficar chutando e implorando pra nascer, não. Se você não der atenção à pequena, no instante em que for botá-la no papel (ou no computador, ou na sua vida), ela se recusará a sair para o mundo, e você se verá diante de uma ex-idéia.

E todos vão dizer puxa, mas era uma idéia tão boa, tão cheia de vida quando era viva. E a Pollyanna vai dizer mas pelo menos você assistiu bastante tv enquanto não colocava a idéia em prática, e assistir bastante tv traz um pouquinho de matéria prima pro Senhor Inconsciente trabalhar. Consolar até consola. Mas você sabe muito bem que a vida real traz ainda mais matérias primas, e queima menos neurônios. E que a tragédia de uma idéia natimorta é tanto maior quanto o tamanho e importância da idéia. E que o tio Ben sempre esteve certo.

[texto escrito há 1 ano atrás e ctrlczado aqui porque reli e, puxa vida, gostei]



How to be creative
Ludovica
Tinha recebido esse link há tempos e tinha perdido. É um manifesto criativo escrito por um cara genial que fez fama desenhando no verso de cartões de visita (e escrevendo um blog muito comunicativo :D). É um longo texto mas vale muito a pena. Se minha idéia aqui é me inspirar e inspirar os visitantes dessa grande caixa de fósforos por tabela, eu não só recomendo como exijo que vocês leiam. E tenham uma ótima e produtiva semana.


:O
Janeiro 21, 2008, 4:45 pm
Arquivado como: Por que fósforos?, bloqueio, tempo!

a idéia é transformar esse blog numa espécie de diário de bordo enquanto escrevo meu livro e luto contra a inércia para ressuscitar minhas tirinhas.

Como tal, eu deveria atualizá-lo todo dia. Essa é a idéia secundária também.

O bom de fazer um blog sobre processo criativo é que, quando eu não quero escrever, posso dizer que passei por um bloqueio criativo e então falar sobre ele. Dessa vez o bloqueio criativo se chamou falta de tempo. Ou, melhor, falta de construção de tempo.



são 2.
Novembro 28, 2007, 12:02 am
Arquivado como: Por que fósforos?, megalomanias

o Pargarávio e esse. São 2 porque sim. Porque o Pargarávio tem de tudo, e esse aqui é mais temático. Adoro coisas temáticas.



minha musa inspiradora é uma mulher da vida.
Novembro 5, 2007, 9:50 pm
Arquivado como: Por que fósforos?, a Internet, inspirando, tenho medo

às vezes você acha que uma idéia é genial até descobrir que muitas outras pessoas pensaram exatamente a mesma coisa sobre exatamente a mesma coisa.

por exemplo, esse tão recente e de conceito tão (até ontem) criativo, blog. Em menos de um mês de existência desses palitos já consegui encontrar dois irmãos semelhantes, luminosos, e não muito distantes de mim: o Serendipidade e o Estalo.

e hoje eu aprendi que: repertório e lapidação de idéias são  amigos, não comida.

Paciência. Continuo gostando dos meus palitos, mesmo que eles não sejam assim tão únicos no mundo dos fósforos.

…às vezes, no entanto, você é afrontado com casos muito piores, de pura, absurda e amedrontadora coincidência.

TO BE CONTINUED…



6 [quase 7] anos… e ainda tô jovem!
Outubro 27, 2007, 10:32 pm
Arquivado como: O livro, Por que fósforos?

eis aí então uma das maiores motivações para a existência desse blog: um livro em processo de criação… desde 19 de fevereiro de 2001. Ou seja, contabilizando hoje mais ou menos quase 7 anos de vida. Menos de vida que de existência, pra ser infelizmente sincera.

nessa data de origem e de criação eu tinha 13 anos. Não lembro bem quando, mas me parece que foi em uma viagem de carro depois de uma noite de sono inspiradora que a idéia pro meu livro (que na real é uma trilogia) surgiu. Surgiu assim, quase que na íntegra.

Agora imagine você quantas vezes essa história foi mudada, remodelada e maquiada na minha cabeça.

Tenho cerca de 15 começos pra história guardados em papel. Todos iguais. Só que escritos de maneira diferente, em anos diferentes. Só pra se ter uma idéia.

Eu acredito que todo esse tempo foi ótimo. Porque faz um ano que eu peguei o jeito, finalmente encontrei um jeito de escrever que pra mim fica muito mais fácil e que está à prova de tempo… leio daí dois meses e ainda gosto. E foi esse ano, veja você, que escrevi metade das 25 páginas que ele tem.

agora, olha bem pra mim, não desistir de um livro de 7 anos e 25 páginas ou é prova de perseverança ou de obsessão.

Ainda quero falar bastante dele por aqui, tem muito material de processo criativo, muito mesmo, e mais ainda de processos de desespero.

Quem viver verá.



agora, explicando.
Outubro 18, 2007, 11:57 pm
Arquivado como: Metáforas claras como a água, Por que fósforos?

Fósforos o quê? E interruptor? O que tem a ver com a história? Do que essa garota tá falando? Ela gosta de falar assim?

Pois é.

Palitos de fósforo. Palitos porque o “caixadefosforo.wordpress” estava ocupado. Mas a idéia, como toda idéia sempre parece pro seu autor, é simples. E muito clara.

Gente criativa tem às pampas por aí. E quem é escravo desse vermezinho maldito que se chama “criação” sofre. Dizem que é sofrido ter insights ou pegar a inspiração num bom dia, porque ela é uma senhora muito difícil.

Mas eu discordo. Arrisco dizer que mais difícil do que ela somos nós. Porque eu acredito (coitada) que a grande idéia sempre está lá pra gente, e nós é que, pelos mais diferentes motivos, não damos atenção à sujeita.

Simplesmente não sabemos como acender aquela tão almejada lâmpadazinha da idéia e gritar EURECA.

Em outras palavras, nós perdemos o caminho que leva ao interruptor. Ou o interruptor trava. Ou quebra. Ou pode até ser que tenham tirado ele do nosso alcance. Mas é nessas horas que a criatividade tem que se mostrar útil: é nessas horas [preste atenção agora, agora é o clímax] que devemos recorrer à caixinha de fósforos que trazemos no bolso.

A iluminação desses fósforos pode não ser duradoura ou potente como a de uma lâmpada, mas é mais ecológica e funciona que é uma beleza.

e, muitas vezes, um palito de fósforo consegue fazer mais estrago que uma lâmpada.

(para os disléxicos, o resumo:

idéia/criação/qualquer coisa genial que saia da gente: lâmpada acesa.

meio pra acendermos a lâmpada: o interruptor.

saída de emergência: os palitos de fósforo. )

Pois bem. A idéia desse blog é ser um modesto refúgio pra todos aqueles que se encaixam nesse perfil:

- os que fazem

- os que começam a ter idéias, a pensar

- os que criam

- os que não crêem mais

- os que sofrem com idéias

- os que sofrem pelas idéias

- os que sofre com as idéias

- os que sofrem sem idéias

- os que não sofrem e estão bem assim, muito bem obrigada

Quero assim contar meus perrenhes nessa vida indigna de escrava das minhas próprias criações (um livro de 25 páginas sendo escrito há 7 anos te diz alguma coisa?), e compartilhar experiências e inexperiências de vida com todos os que aqui aportarem.

Damos, então, início à sessão.

[cumprindo desde já meu propósito de escrever um por dia. Pra dar tempo, não atualizei a lista de blogs aí do lado. Logo logo ela vai estar tinindo.]