Autoajudando a autoajuda

Sei disso porque já passei por essa fase, e bem cedo, na época em que levar um livro da Agatha Christie pra ler na hora do recreio era símbolo máximo de literatura: é que todo leitor que se considera “iluminado” passa por uma fase em que ele descobre o que é que o difere do “leitor comum”. É quando ele começa a olhar com cara feia as listas de best-sellers e dá uma risadinha disfarçada ao ver aquela senhorinha de crocs e coques lendo aquele livro que está na moda. É quando ele passa de nariz empinado pela seção de autoajuda, alimentando o senso comum de que livros de autoajuda são coisa de gente burra.

Resolvi fazer esse post depois de perceber muita gente confessando pra mim, meio sem graça, olhando pros lados, que estava lendo determinado livro de autoajuda. Gente bacana que fala isso quase que pedindo desculpas, como se essa declaração fosse um ingresso pra que eu fizesse um Bücherverbrennung com eles em plena praça da Sé, jogando na fogueira livros, pessoas, Paulos e Coelhos.

E espera aí, que não é por aí. Claro, existe muito livro de autoajuda safado por aí, de gente que inventa regra pra tudo e escreve meia dúzia de afirmações óbvias, pensando na grana – e isso já subverte o papel final do livro.

Mas a autoajuda em sua essência não precisa ser isso. Esse gênero pode ser bem escrito, deve trazer alguma coisa bacana, alguma coisa que te faça sentir bem porque primeiro te fez sentir alguma coisa, porque te conta coisas novas, coisas inteligentes, porque te mostra um novo viés para viver (e o legal é que, sob essa ótica, qualquer livro de literatura pode ser uma autoajuda disfarçada).

O problema não é a autoajuda. É a autoajuda que não te acrescenta nada, que faz você ler e achar bacana, copiar uns textos na sua timeline do Facebook e continuar lá, todo bacana. Isso se aplica a todas as autoajudas dessa vida. Terapia bem feita é autoajuda, crença sincera é autoajuda, exercícios físicos regulares são autoajuda. E se você está saindo do consultório, da igreja ou da academia super de bem com você mesmo todos os dias, sem uma dorzinha lá ou acolá, lamento informar: ela não está te ajudando em nada.

Por isso, da próxima vez que você for me contar que está lendo um livro autoajuda, não precisa se esconder. Você está lendo ele do jeito certo? Você já está colocando em prática na sua vida? Você tem vontade de ir a fundo e entender as bases do que você está lendo?

E principalmente: ele te ajudou?

Então não me interessa se é cafona ou não.

Com o tempo você pode até ir migrando de estante e descobrindo novas formas de se fazer autoajuda, uma que não envolva, necessariamente, fórmulas prontas para o sucesso ou fotos dos próprios autores com seus dentões brancos em exposição.

Isso é autoajuda:

Isso é autoajuda:

Isso é autoajuda:

Isso é autoajuda:

Isso é autoatrapalhação:

Isso é automóvel:

steal.

Steal like an artist, como diria Austin Kleon.

“Nada é original. Roube de qualquer lugar que pareça inspirador ou preencha sua imaginação. Devore filmes antigos, músicas novas, livros, pinturas, fotografias, poemas, sonhos, conversas aleatórias, arquitetura, pontes, placas de rua, árvores, nuvens, poças d’água, luz e sombras. Escolha roubar apenas do que fala diretamente com sua alma. Se você fizer isso, seu trabalho (e furto) serão autênticos. A autenticidade tem um valor incalculável; a originalidade não existe.  E não se incomode em esconder sua ‘bandidagem’ – celebre ela, se você quiser. Não importa o que aconteça, lembre-se sempre do que Jean Luc Godard disse: ‘Não é daonde você tira suas ideias – é para onde você as leva.”

proatividade não é importante só no currículo

Sabe trocar papel higiênico no banheiro?

Sabe colocar o açúcar no açucareiro?

Tô cansada (no outro sentido da palavra, não fisicamente cansada) de fazer isso por onde vou. São umas coisinhas tão mínimas, mas pouca gente faz. Sei lá se é problema de criação, se nunca morou sozinho ou se comeu muito Fandangos quando era criança e ficou acostumadinho. Não, as coisas não têm vida própria e não se criam sozinhas. Não custa fazer, você perde umas calorias e ainda melhora as coisas pra você mesmo.

E isso vale pra vida. Porque acredito que quem não levanta o dedo nem pra tirar a pasta de dente que caiu na pia não vai se preocupar com salvar, salvar o planeta, ou salvar-se se puder.

Depois que me formei, percebi que muita coisa do que a gente faz (ou não faz) nos trabalhos da faculdade, a gente leva pra vida. Sério, pode perceber. Tenta marcar uma balada com seu grupo de trabalho da faculdade. O proativo vai marcar, o esforçado vai se esforçar e o reclamão vai reclamar. Afinal, somos a mesma pessoa, produzindo um vídeo ou lavando o banheiro.

Isso é pensável. Não consigo entender falta de proatividade. Preguiça de viver? É tão gostoso ser atento, sair e fazer.

Vale pra vida.

um pouco de teoria

Que vergonha eu voltar a atualizar aqui falando difícil, mas esse vídeo que o Sollero me mandou é bem interessante pra quem trabalha com criatividade, propaganda, entretenimento, mídia, ou só gosta de internet e de pensar um pouquinho.

Não consigo embedar o vídeo :( - clica aqui pra ver!

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Tema: Esquire por Matthew Buchanan.

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