Fala que nem gente!

pato

Também não quero que meus personagens fiquem falando coisas que ninguém falaria na vida real. Claro que rola um pequeno rococó literário ali e aqui, mas queria mesmo que eles falassem que nem gente. Acho que é por isso que enrosco tanto. Mas acho que tô gostando. Tenho até um capítulo feito inteirinho de diálogos.

Quer espiar? Será que mostro? Ah, pode ver, vai.

“O sorvete de flocos está deixando minha voz narrativa rouca e preciso resolver alguns negócios. A esta altura, nossos personagens já podem caminhar e falar sozinhos.

Eu volto.

Ei, é sério.

CAPÍTULO 14

( )

-Ai.

-AI.

-Me ajuda a levantar.

-Ai minhas costas. Cadê aquele sol babaca? Ele me paga.

-Olha o estado do meu tênis. A sola quase derreteu.

-Olha o nosso estado. Olha o estado desse lugar. Olha pra cima.

-Cadê meus óculos?

-Eu sei lá cadê seus óculos, cadê minha casa é a minha pergunta.

-Ah, tá aqui, quase que você pisou.

-Acho que tou vendo menos que você.

-…

-Hmn,

-!

-Que?

-Mas você tá vendo tudo isso, Pedro?

-Eu tou fingindo não ver, que assim fica mais fácil, ok?

-Seu babaca, não finge que não tá vendo, que eu sei que você tá vendo, até muito melhor do que eu, porque você não tem miopia, nem astigmatismo e eu sei que isso que eu tou vendo é real, mais real até do que tudo que já vi na vida, é tipo Matrix. …Você… você tá vendo, né?

-Já disse, eu

-Descreve pra mim. Sério. Pra ver se não é tipo um efeito daquele papiro que só eu vejo.

-Como assim descrever, você vai dar essa moleza pro narrador enquanto ele tá lá todo malandro tomando um sorvete?

-Que?

-Nada.

-Tá, seu maluco, tô vendo tudo sim, o céu, com essa cor louca que eu nunca vi na minha vida, e esse monte de construções, e todas essas cores. Nunca vi tanta cor junta nem em desfile de carnaval. E, cara, essas construções são MUITO legais. E essas… pessoas cercando a gente, com uma cara esquisita…

-Não consigo entender se eles tão bravos, sorrindo ou rindo.

-Na dúvida eu sairia correndo.

-Eu também. Aquilo é uma cabine telefônica?

-Olha, tem o formato de uma, mas aqui não tem muita cara de que se usa telefone. Tipo, que operadora alcançaria aqui? Só se for uma daquelas alternativas, olha, eu acho que eles estão bem perto, um deles inclusive tá encostando o dedo no meu nariz.

-Espera só eu colocar meu tênis.

-Ok.

-CORRE.

– “

-Arf.

-Arf arf.

-Parece que eles não gostam de cabine telefônica. Boa, Pedro!

-Ótima, Sandro. Agora me conta como é que foi que você descobriu aqui.

-Você viu tudo acontecendo, seu crustáceo, não fui eu que DESCOBRI aqui.

-Eu muito menos

-Você não tá curioso?

-CURIOSO, SANDRO?

-Mas

-Peraí.

-Peraí?

-É. Tá confuso aqui.

-Aqui onde, Pedro?

-Na minha cabeça.

-Ãh?

-É. Eu nunca achei que fosse um conservador provinciano de uma figa. Tudo bem que nunca fui muito favorável à juventude sexo, drogas e rock and roll, gosto de dormir cedo ouvindo jazz e confesso que uso pantufas do Patolino até hoje… mas nunca desconfiei. Eu sou um covarde! E estou um tiquinho assim, ó, só um tiquinho assim, assustado. E quero sair daqui.

-Daqui da cabine telefônica ou daqui daqui?

-Daqui daqui, é! Sandro, cara, a gente nem sabe que que é isso. Não é como daquela vez em que você desejou ser órfão só pra ficar mais parecido com o Luke Skywalker. Não é como daquela vez em que criaturinhas que se reproduziam ao ser molhadas infestaram a sua casa.

-Aquele não fui eu.

-Não importa. Isso aqui é uma viagem meio perigosa, Sandro. Não quero nem ver a ressaca que isso vai dar.

-…

-Não venha pro meu lado com essas reticências! É sério! E eu devia estar entregando leites em Plátanos agora. Tem noção de quanta gente vai ficar sem café da manhã hoje de manhã?

-Umas 10?

-Não subestima meu trabalho, Sandro. … Pelo menos umas trinta.

-Enquanto isso, o entregador de leite deles tá preso dentro de uma cabine telefônica dentro de uma cidade esquisita. Ué, não é leg…

-Uma comunidade alternativa.

-Uma comunidade alternativa?

-Uma comunidade hippie colorida esquisita. Isso aqui, Sandro, sabe o que que é isso aqui? Aaaaah, já entendi tudo. Sabe o que é isso aqui? A gente tá dentro da sua cabeça.

-Ah, agora a gente tá dentro da minha cabeça?

-É sim, você me fez tomar tipo aquela pílula, sabe? Aquela pílula que o cara daquele filme tomou? Como é mesmo o nome? Lembrei! É Viagem Insólita dentro do seu cérebro. E eu tou todo aqui, virando amiguinho dos seus cerebelos.

-Pedro. Eu não tenho tanta imaginação assim.

-Ah, não tem… Não tem, mesmo. É, isso é verdade. Acho que eu tou tendo tipo um ataque histérico.

-Eu estava tentando não te dizer isso…

-Acho que eu preciso lavar meu rosto. Será que essa galera bebe água?

-Gente esquisitinha, né?

-Mas me parecem simpáticos, até.

-Isso até é.

-Não têm cara de que iam matar uma mosca.

-Não. Inclusive aquele ali está andando com uma mosca numa coleira ou o quê?

-Onde?

-Aquele. Ao lado daquela menina com aquele coque maior que a cabeça dela.

-Ah. Nossa. Gatinha ela.

-Gatinha estranha.

-Das melhores. Cadê o cara com a mosca?

-Ali, do lado do cara tomando sorvete de flocos.

-O que está vindo pra cá?

-É, carregando uma placa.

-Ele tá olhando pra gente?

-Parece. O que tá escrito na placa?

-Ih, não consigo ver.

-Ele tá escondendo o rosto.

-Haha. Vai lá, esquisitão.

-Cala a boca. Ele vai ouvir. Ó, tá escrito Capítulo alguma coisa.

-Será que ele é tipo aqueles homem-sanduíche daqui do mundo bizarro?

-Peraí, tô conseguindo ler agora. Tá escrito

CAPÍTULO 15

Vendo, Troco e Revendo desemaranhamento mental”

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One thought on “Fala que nem gente!

  1. Que leitura deliciosamente encantadora e metafísica.. Deu uma vontade enorme de ler mais e mais.. Quando lançar o livro faça-o em e-book também.. Vou amar adquirir um. É incrivel como essas coisas dão certo mesmo. Hoje (sábado) mesmo pela manhã estava assistindo um programa na TV Band da rede Multi Rio chamado “Cidade de Leitores” sobre a cultura na era da internet. E essa leitura completou com chave de ouro todo aquele papo gostoso da manha. Sucesso e espero que esse projeto e todos os outros desses longos anos cheguem a nós mortais.. 😉

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